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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Paulo da Portela e o samba nos trilhos

• Em 31 de janeiro de 1949, o Rio de Janeiro parou. A poucas semanas do carnaval, a cidade perdia Paulo da Portela, com 47 anos, vítima de um ataque cardíaco. O comércio do bairro de Madureira fechou em luto e cerca de 15 mil pessoas foram se despedir do poeta, caminhando de sua casa, no subúrbio de Oswaldo Cruz, até o cemitério de Irajá.

Paulo Benjamin de Oliveira era então um dos mais conhecidos compositores, senão o principal. O número de pessoas em seu enterro só foi menor que em 1936, ao ser eleito “cidadão momo”. O título fez 100 mil pessoas se reunirem no centro do Rio. Um número impressionante, ainda mais para uma cidade que tinha 1,5 milhão de habitantes. A multidão fez o pesquisador Sérgio Cabral enxergar em Paulo “um dos maiores líderes populares que o Rio de Janeiro já conheceu”.

Paulo foi testemunha e personagem de grandes transformações no samba em anos que moldaram a folia. Ele recebeu seu sobrenome antes da escola. Ele e seus companheiros passaram a se reunir sob uma árvore, no número 461 da Estrada da Portela. A música atraiu e a roda virou bloco. Paulo precisava de um sobrenome. Virou Paulo da Portela.

Do bloco até o GRES Portela, foi pouco mais de uma década. Nesses anos, se reuniram em todo tipo de local, até dentro de um vagão de trem.

Nos trilhos
O trem partia da Central do Brasil às 18h04 para o subúrbio. O grupo estava sempre lá, no mesmo vagão. Disciplina que não combinava com a imagem do sambista que se tinha.

O negro alto, esguio e bonito comportava-se impecavelmente e era chamado de “professor”. Contemporâneo de Monarco, Cartola e Heitor dos Prazeres, Paulo acreditava na profissionalização de sambistas. Vestia terno, gravata e chapéu, no que era seguido por seus companheiros.

Wilson Moreira, numa entrevista, recordou de quando chegou à Portela. “Mestre Natal me ensinou que eu sempre fizesse o samba com elegância, como Paulo fazia. Esse é o seu maior legado”, afirma.

O pesquisador José Ramos Tinhorão, em depoimento ao documentário Paulo da Portela – Seu nome não caiu no esquecimento, destaca como era o carnaval de rua.

“Como a escola representava a sua comunidade, havia muito bairrismo. Ficaram famosas as brigas de integrantes na Praça Onze. E o Paulo da Portela era um diplomata. Primeiro, ele era muito maneiroso, se vestia bem, era bem falante. Ele não tinha esse negócio. Aparecia na Mangueira, era bem recebido. Outro ficaria com receio de ir”, afirma.

De origem proletária e de baixa escolaridade, Paulo era bem articulado e fazia discursos de improviso. Tornou-se uma espécie de porta-voz, sendo escutado por jornalistas, políticos e governantes.

Combatia o preconceito contra o povo negro. Sergio Cabral lembra que “nos primeiros desfiles, a polícia ficava na Praça Onze, impedindo que os foliões que terminavam de desfilar seguissem para o Centro. Eles eram obrigados a voltar, ou para o subúrbio ou para as favelas próximas”.

Paulo conseguiu ser escutado em momentos críticos. Como em 1945, após uma morte causada por briga num desfile. Aos jornais, ele disparou: “Os ladrões, os pilantras, os verdadeiros assassinos não estão na escola de samba. Estão na Avenida Rio Branco, de terno, colarinho e gravata”. A avenida reunia o poder financeiro e político do país e o discurso revela a visão política do sambista, que chegou a participar de comícios do PCB e compor para Luiz Carlos Prestes.

Abram alas
Em 1931, a Portela desfila como “Vai Como Pode”. Só em 1935, quando o desfile tornou-se oficial, a escola adotou seu nome. Paulo dirigiu os primeiros desfiles, com mudanças. Em 1939, trouxe os componentes com fantasias voltadas ao enredo, algo óbvio hoje em dia.

O pioneirismo surge com alegorias, alas e comissões de frente e na presença feminina, com duas vozes no samba. Venceu diversos carnavais, até mesmo depois que Paulo se desentendeu com a diretoria da escola, indo para a pequena Lira de Ouro.

Até a sua morte, em 1949, participa de programas de rádio, grava e segue compondo. Canta o jeito simples da vida suburbana, o amor e acima de tudo, a escola que seguiu em seu peito. Como nesse verso, de 1941: “Chora, Portela/ Minha Portela querida/ Eu que te fundei/ Serás minha toda vida”.

O sambista e o mito do Zé Carioca
Entre os muitos shows, Paulo da Portela apresentou-se a um grupo de norte-americanos. Walt Disney estava presente e reza a lenda que teria se inspirado em Paulo para criar o brasileiro Zé Carioca. Os personagens – Argentina e México também teriam os seus – faziam parte da política de boa vizinhança dos EUA, na Segunda Guerra.

O mito resume o caminho trilhado pelo sambista. Paulo atuou como um mediador, procurando aproximar dois lados de uma cidade, que continua dividida até hoje, por conta da segregação e da desigualdade.

Sua luta para retirar o samba da marginalidade encontrou eco entre governantes e a mídia. O Estado Novo enxergou a possibilidade de afirmar uma identidade nacional. A mídia viu ainda um negócio rentável. Ambos precisavam construir uma nova imagem da festa.

Uma reportagem da época resume o espírito. “Ordem absoluta. Prazer imenso. Constituem essas festas, até, número de turismo dos mais admiráveis e admirados. O governo faz bem. É festa legítima do povo. E só é alegre quem é feliz.”

Paulo da Portela enxergava o talento do povo negro, sua criatividade e apostava na música como caminho para a ascensão e a integração social. Não duvidava do potencial e da qualidade à sua volta. Mas, não só nas roupas, aceitou atender ao gosto da platéia formada pela elite branca e rica, que havia expulsado pobres e negros do centro há poucas décadas, num esforço para “limpar” a capital.

Agora, estes mesmos senhores queriam moldar o samba, como um papagaio preguiçoso, favelado e malandro e, acima de tudo, inofensivo.

A experiência coletiva e o prazer de criar foram sendo abandonados, substituídos pela obrigação e pelas normas do mercado de discos.

É legítima a busca pela aceitação do samba e pela profissionalização de quem faz o carnaval, como compositores, costureiras e o pessoal nos barracões. Mas, em nome dessa busca, a história do carnaval mostra como o mercado e as elites foram alterando a essência da festa.

Transformação vista por Heitor dos Prazeres, em 1957, oito anos após a morte do parceiro Paulo da Portela. Ele falou com amargura dos desfiles, dizendo que ao contrário do tempo em que se desfilava por amor, “hoje tudo é feito só com muito dinheiro”. Uma frase que soa como profecia, se olharmos os desfiles de hoje na Sapucaí. Mas que renova a esperança, quando vemos os milhões de foliões nos blocos de todo o país.

Talvez o que tenha passado despercebido é que esse sistema não permite a verdadeira libertação do povo negro e a plena satisfação de seus talentos. Para os capitalistas, somos todos papagaios.

Gustavo Sixel

Extraído do Portal do PSTU

Um comentário:

Hitallo disse...

Bem legal o texto Fabiano. o Pstu é bem sambista... vi uma materia de 2008 que era com o cartola.

 
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