Pérola

"Nós entendemos que Israel tem o direito de se defender pois nesses últimos anos o Hamas lançou diversos foguetes na região"
Barack Obama

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Filosofia

O mundo me condena,
e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim
Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia

Noel Rosa

sábado, 9 de maio de 2009

Acabaram as férias

Bom pessoal, já há algum tempo que as coisas por aqui não são atualizadas, peço desculpas aos que por aqui passaram nesse tempo,mas estava meio sem saco para o blog nas últimas semanas.

Enfim, cá estou para voltar a atualizar isto, com mais poemas e novos textos sempre que possível

quase nada mudou nos tempos em que estive fora:

1. a crise se aprofunda cada vez mais, e os governos dizem que o pior já passou oO

2. O governo Lula continua enganando todo mundo, e a última éa do ENEN como vestibular... mais uma espinha que quer enfiar guela abaixo das universidades brasileiras.

3. O socialismo continua sendo a unica solução aos problemas que enfrentamos na atualidade.

Bom por enquanto é isso,

"boa noite e até a amanhã" (Fátima Bernades e Willian Bonner) :P

segunda-feira, 9 de março de 2009

Diante do mar

Oh, mar, enorme mar, coração feroz
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.

Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
"Piedade, piedade para o que mais ofenda".

Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.

Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.

Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.

Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria...
Ah, eu sonhava ser como tu és.

Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.

Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar!... Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.

E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!

Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança...
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.


Alfonsina Storni
Tradução de José Agostinho Baptista

domingo, 8 de março de 2009

O Dia da Mulher

Nesse dia fazemos uma homenagem à mulheres, com um texto da Revolucionária Russa, Alexandra Kollontai.

O dia Da Mulher

O quê é o dia da Mulher? É realmente necessário? Será que é umha concessom às mulheres da classe burguesa, às feministas e sufragistas? Será que é nocivo para a unidade do movimento operário? Estas questons ainda se escuitam na Rússia, embora já nom no estrangeiro. A vida mesma deu umha resposta clara e eloqüente a tais perguntas.

O Dia da Mulher é um elo na longa e sólida cadeia da mulher no movimento operário. O exército organizado de mulheres trabalhadoras cresce cada dia. Há vinte anos, as organizaçons operárias nom tinham mais do que grupos dispersos de mulheres nas bases dos partidos operários... Agora os sindicatos ingleses tenhem mais de 292.000 mulheres sindicadas; na Alemanha som à roda de 200.000 sindicadas e 150.000 no partido operário, na Áustria há 47.000 nos sindicatos e 20.000 no partido. Em toda as parte, em Itália, na Hungria, na Dinamarca, na Suécia, na Noruega e na Suíça, as mulheres da classe operária estám a organizar-se a si próprias. O exército de mulheres socialistas tem perto de um milhom de membros. Umha força poderosa! Umha força com a qual os poderes do mundo devem contar quando se pom sobre a mesa o tema do custo da vida, a segurança da maternidade, o trabalho infantil ou a legislaçom para proteger os trabalhadores.

Houve um tempo em que os homens trabalhadores pensavam que deveriam carregar eles sós sobre os seus ombros o peso da luita contra o capital, pensavam que eles sós deviam enfrentar-se ao "velho mundo", sem o apoio das suas companheiras. Porém, como as mulheres da classe trabalhadora vam entrar nas fileiras de aqueles que vendem o seu trabalho em troca de um salário, forçadas a entrar no mercado laboral por necessidade, porque o seu marido ou pai estava no desemprego, os trabalhadores vam começar a reparar em que deixar atrás as mulheres entre as fileiras dos "nom-conscientes" era danar a sua causa e evitar que avançasse. Que nível de consciência posui umha mulher que senta no fogom, que nom tem direitos na sociedade, no Estado ou na família? Ela nom tem ideias próprias! Todo se fai segum ordena o seu pai ou marido...

O atraso e a falta de direitos sofridos polas mulheres, a sua dependência e indiferença nom som beneficiosos para a classe trabalhadora, e de facto som um mal directo para a luita operária. Mas, como entrará a mulher nesta luita, como acordará?

A social-democracia estrangeira nom vai encontrar soluçom correcta imediatamente. As organizaçons operárias estavam abertas às mulheres, mas só umhas poucas entravam. Por quê? Porque a classe trabalhadora, ao começo, nom vai dar por si que a mulher trabalhadora é o membro mais degradado, tanto legal quanto socialmente, da classe operária, que ela foi espancada, intimidada, encurralada ao longo dos séculos, e que para estimular a sua mente e o seu coraçom necessita umha aproximaçom especial, palavras que ela, como mulher, entenda. Os trabalhadores nom se vam dar conta imediatamente de que neste mundo de falta de direitos e de exploraçom, a mulher está oprimida nom só como trabalhadora, mas também como mae, mulher. Porém, quando membros do partido socialista operário entendêrom isto, figérom sua a luita pola defesa das trabalhadoras como assalariadas, como maes, como mulheres.

Os socialistas em cada país começam a demandar umha protecçom especial para o trabalho das mulheres, seguranças para as maes e os seus filhos, direitos políticos para as mulheres e a defesa dos seus interesses.

Quanto mais claramente o partido operário percebia esta dicotomia mulher/trabalhadora, mais ansiosamente as mulheres se uniam ao partido, mais apreciavam o rol do partido como o seu verdadeiro defensor e mais decididamente sentiam que a classe trabalhadora também luitava polas suas necessidades. As mulheres trabalhadoras, organizadas e conscientes, figérom muitíssimo para elucidar este objectivo. Agora, o peso do trabalho para atrair as trabalhadoras ao movimento socialista reside nas mesmas trabalhadoras. Os partidos em cada país tenhem os seus comités de mulheres, com os seus secretariados e burós para a mulher. Estes comités de mulheres trabalham na ainda grande populaçom de mulheres nom conscientes, levantando a consciência das trabalhadoreas em seu redor. Também examinam as demandas e questons que afectam mais directamente à mulher: protecçom e provisom para as maes grávidas ou com filhos, legislaçom do trabalho feminimo, campanha contra a prostituiçom e o trabalho infantil, a demanda de direitos políticos para as mulheres, a campanha contra a suba do custo da vida...

Assim, como membros do partido, as mulheres trabalhadoras luitam pola causa comum da classe, enquanto ao mesmo tempo delineam e ponhem em questom aquelas necessidades e as suas demandas que lhes dim respeito mais directamente como mulheres, como donas de casa e como maes. O partido apoia estas demandas e luita por elas. Estas necessidades das mulheres trabalhadoras som parte da causa dos trabalhadores como classe.

No dia da mulher as mulheres organizadas manifestam-se contra a sua falta de direitos. Mas alguns dim, por quê esta separaçom das luitas das mulheres? Por quê há um dia da mulher, panfletos especiais para trabalhadoras, conferências e comício? Nom é, enfim, umha concessom às feministas e sufragistas burguesas? Só aqueles que nom compreendem a diferença radical entre o movimento das mulheres socialistas e as sufragistas burguesas podem pensar desta maneira.

Qual o objectivo das feministas burguesas? Conseguir os mesmos avanços, o mesmo poder, os mesmo direitos na sociedade capitalista que possuem aogra os seus maridos, pais e irmaos. Qual o objectivo das operárias socialistas? Abolir todo o tipo de privilégios que derivem do nascimento ou da riqueza. À mulher operária é-lhe indiferente se o seu patrom é um homem ou umha mulher.

As feministas burguesas demandam a igualdade de direitos sempre e em qualquer lugar. As mulheres trabalhadoras respostam: demandamos direitos para todos os cidadaos, homens e mulheres, mas nós nom só somos mulheres e trabalhadoras, também somos maes. E como maes, como mulheres que teremos filhos no futuro, demandamos umha atençom especial do governo, protecçom especial do Estado e da sociedade.

As feministas burguesas estám luitando para conseguir direitos políticos: também aqui os nossos caminhos se separam. Para as mulheres burguesas, os direitos políticos som simplesmente um meio para conseguir os seus objectivos mais comodamente e com mais segurança neste mundo baseado na exploraçom dos trabalhadores. Para as mulheres operárias, os direitos políticos som um passo no caminho empedrado e difícil que leva ao desejado reino do trabalho.

Os caminhos seguidos polas mulheres trabalhadoras e as sufragistas burguesas separárom-se há tempo. Há umha grande diferença entre os seus objectivos. Há também umha grande contradiçom entre os interesses de umha mulher operária e as donas proprietárias, entre a criada e a senhora... portanto, os trabalhadores nom devem temer que haja um dia separado e assinalado como o Dia da Mulher, nem que haja conferências especiais e panfletos ou imprensa especial para as mulheres.

Cada distinçom especial para as mulheres no trabalho de umha organizaçom operária é umha forma de elevar a consciência das trabalhadoras e aproximá-las das fileiras de aqueles que estám a luitar por um futuro melhor. O Dia da Mulher e o lento, meticuloso trabalho feito para elevar a auto-consciência da mulher trabalhadora estám servindo à causa, nom da divisom, mas da uniom da classe trabalhadora.

Deixa um sentimento alegra de servir à causa comum da classe trabalhadora e de luita simultaneamente pola emancipaçom feminina inspire os trabalhadores a unirem-se à celebraçom do Dia da Mulher.

Alexandra kollontai, 1913

Fonte: Marxists.org

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Dor


Quisera esta tarde divina de outubro
passear pela beira longínqua do mar;
Que a areia de ouro, e as águas verdes,
e os céus puros me vissem passar.

Ser alta, soberba, perfeita, quisera,
como uma romana, para concordar
com as grandes ondas, e as rocas mortas
e as largas praias que apertem o mar.

Com o passo lento, e os olhos frios
e a boca muda, deixar-me levar;
ver como se rompem as ondas azuis,
contra os granitos e não pestanejar;
ver como as aves de rapina se comem
os peixes pequenos e não despertar;
pensar que puderam as frágeis barcas
Afundar-se nas águas e não suspirar;
Ver que se adianta a garganta ao ar,
O homem mais belo não desejar amar…

Perder o olhar, distraidamente,
perde-lo e que nunca o volte a encontrar:
E figura erguida entre céu e praia
sentir-me o esquecimento perene do mar.

Alfonsina Storni

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Paulo da Portela e o samba nos trilhos

• Em 31 de janeiro de 1949, o Rio de Janeiro parou. A poucas semanas do carnaval, a cidade perdia Paulo da Portela, com 47 anos, vítima de um ataque cardíaco. O comércio do bairro de Madureira fechou em luto e cerca de 15 mil pessoas foram se despedir do poeta, caminhando de sua casa, no subúrbio de Oswaldo Cruz, até o cemitério de Irajá.

Paulo Benjamin de Oliveira era então um dos mais conhecidos compositores, senão o principal. O número de pessoas em seu enterro só foi menor que em 1936, ao ser eleito “cidadão momo”. O título fez 100 mil pessoas se reunirem no centro do Rio. Um número impressionante, ainda mais para uma cidade que tinha 1,5 milhão de habitantes. A multidão fez o pesquisador Sérgio Cabral enxergar em Paulo “um dos maiores líderes populares que o Rio de Janeiro já conheceu”.

Paulo foi testemunha e personagem de grandes transformações no samba em anos que moldaram a folia. Ele recebeu seu sobrenome antes da escola. Ele e seus companheiros passaram a se reunir sob uma árvore, no número 461 da Estrada da Portela. A música atraiu e a roda virou bloco. Paulo precisava de um sobrenome. Virou Paulo da Portela.

Do bloco até o GRES Portela, foi pouco mais de uma década. Nesses anos, se reuniram em todo tipo de local, até dentro de um vagão de trem.

Nos trilhos
O trem partia da Central do Brasil às 18h04 para o subúrbio. O grupo estava sempre lá, no mesmo vagão. Disciplina que não combinava com a imagem do sambista que se tinha.

O negro alto, esguio e bonito comportava-se impecavelmente e era chamado de “professor”. Contemporâneo de Monarco, Cartola e Heitor dos Prazeres, Paulo acreditava na profissionalização de sambistas. Vestia terno, gravata e chapéu, no que era seguido por seus companheiros.

Wilson Moreira, numa entrevista, recordou de quando chegou à Portela. “Mestre Natal me ensinou que eu sempre fizesse o samba com elegância, como Paulo fazia. Esse é o seu maior legado”, afirma.

O pesquisador José Ramos Tinhorão, em depoimento ao documentário Paulo da Portela – Seu nome não caiu no esquecimento, destaca como era o carnaval de rua.

“Como a escola representava a sua comunidade, havia muito bairrismo. Ficaram famosas as brigas de integrantes na Praça Onze. E o Paulo da Portela era um diplomata. Primeiro, ele era muito maneiroso, se vestia bem, era bem falante. Ele não tinha esse negócio. Aparecia na Mangueira, era bem recebido. Outro ficaria com receio de ir”, afirma.

De origem proletária e de baixa escolaridade, Paulo era bem articulado e fazia discursos de improviso. Tornou-se uma espécie de porta-voz, sendo escutado por jornalistas, políticos e governantes.

Combatia o preconceito contra o povo negro. Sergio Cabral lembra que “nos primeiros desfiles, a polícia ficava na Praça Onze, impedindo que os foliões que terminavam de desfilar seguissem para o Centro. Eles eram obrigados a voltar, ou para o subúrbio ou para as favelas próximas”.

Paulo conseguiu ser escutado em momentos críticos. Como em 1945, após uma morte causada por briga num desfile. Aos jornais, ele disparou: “Os ladrões, os pilantras, os verdadeiros assassinos não estão na escola de samba. Estão na Avenida Rio Branco, de terno, colarinho e gravata”. A avenida reunia o poder financeiro e político do país e o discurso revela a visão política do sambista, que chegou a participar de comícios do PCB e compor para Luiz Carlos Prestes.

Abram alas
Em 1931, a Portela desfila como “Vai Como Pode”. Só em 1935, quando o desfile tornou-se oficial, a escola adotou seu nome. Paulo dirigiu os primeiros desfiles, com mudanças. Em 1939, trouxe os componentes com fantasias voltadas ao enredo, algo óbvio hoje em dia.

O pioneirismo surge com alegorias, alas e comissões de frente e na presença feminina, com duas vozes no samba. Venceu diversos carnavais, até mesmo depois que Paulo se desentendeu com a diretoria da escola, indo para a pequena Lira de Ouro.

Até a sua morte, em 1949, participa de programas de rádio, grava e segue compondo. Canta o jeito simples da vida suburbana, o amor e acima de tudo, a escola que seguiu em seu peito. Como nesse verso, de 1941: “Chora, Portela/ Minha Portela querida/ Eu que te fundei/ Serás minha toda vida”.

O sambista e o mito do Zé Carioca
Entre os muitos shows, Paulo da Portela apresentou-se a um grupo de norte-americanos. Walt Disney estava presente e reza a lenda que teria se inspirado em Paulo para criar o brasileiro Zé Carioca. Os personagens – Argentina e México também teriam os seus – faziam parte da política de boa vizinhança dos EUA, na Segunda Guerra.

O mito resume o caminho trilhado pelo sambista. Paulo atuou como um mediador, procurando aproximar dois lados de uma cidade, que continua dividida até hoje, por conta da segregação e da desigualdade.

Sua luta para retirar o samba da marginalidade encontrou eco entre governantes e a mídia. O Estado Novo enxergou a possibilidade de afirmar uma identidade nacional. A mídia viu ainda um negócio rentável. Ambos precisavam construir uma nova imagem da festa.

Uma reportagem da época resume o espírito. “Ordem absoluta. Prazer imenso. Constituem essas festas, até, número de turismo dos mais admiráveis e admirados. O governo faz bem. É festa legítima do povo. E só é alegre quem é feliz.”

Paulo da Portela enxergava o talento do povo negro, sua criatividade e apostava na música como caminho para a ascensão e a integração social. Não duvidava do potencial e da qualidade à sua volta. Mas, não só nas roupas, aceitou atender ao gosto da platéia formada pela elite branca e rica, que havia expulsado pobres e negros do centro há poucas décadas, num esforço para “limpar” a capital.

Agora, estes mesmos senhores queriam moldar o samba, como um papagaio preguiçoso, favelado e malandro e, acima de tudo, inofensivo.

A experiência coletiva e o prazer de criar foram sendo abandonados, substituídos pela obrigação e pelas normas do mercado de discos.

É legítima a busca pela aceitação do samba e pela profissionalização de quem faz o carnaval, como compositores, costureiras e o pessoal nos barracões. Mas, em nome dessa busca, a história do carnaval mostra como o mercado e as elites foram alterando a essência da festa.

Transformação vista por Heitor dos Prazeres, em 1957, oito anos após a morte do parceiro Paulo da Portela. Ele falou com amargura dos desfiles, dizendo que ao contrário do tempo em que se desfilava por amor, “hoje tudo é feito só com muito dinheiro”. Uma frase que soa como profecia, se olharmos os desfiles de hoje na Sapucaí. Mas que renova a esperança, quando vemos os milhões de foliões nos blocos de todo o país.

Talvez o que tenha passado despercebido é que esse sistema não permite a verdadeira libertação do povo negro e a plena satisfação de seus talentos. Para os capitalistas, somos todos papagaios.

Gustavo Sixel

Extraído do Portal do PSTU

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Um dever de honra

Rosa Luxemburgo

Não queríamos “anistia” nem perdão para as vítimas políticas do velho poder reacionário. Exigíamos nosso
direito à liberdade, à luta e à revolução para aquela centena de militantes corajosos e leais que definhavam nas penitenciárias e nas prisões por terem lutado, sob a ditadura militar do bando criminoso imperialista, pela liberdade do povo, a paz e o socialismo. Agora estão todos em liberdade. Estamos novamente enfileirados, prontos para o combate. Não foram os Scheidemann e seus cúmplices burgueses, com o príncipe Max (1) à frente, que nos libertaram. Foi a revolução proletária que fez explodir as portas de nossas casamatas.

Contudo,
outra categoria de habitantes infelizes desses edifícios lúgubres foi completamente esquecida. Ninguém pensou até agora nos milhares de figuras pálidas e macilentas que definham anos a fio atrás dos muros de prisões e penitenciárias expiando crimes comuns.

E no entanto são vítimas infelizes da infame ordem social contra a qual a revolução
se dirigiu; são vítimas da guerra imperialista, que levou a miséria e a desgraça aos extremos da mais insuportável tortura; que, ao custo de uma carnificina brutal, desencadeou em naturezas fracas, dotadas de taras hereditárias, os instintos mais vis.

A justiça de classe
burguesa funcionou mais uma vez como uma rede que deixa tranquilamente escapar de suas malhas os tubarões rapaces enquanto as pequenas sardinhas nelas se debatem desamparadas. Os especuladores, que ganharam milhões com a guerra, ficaram na sua maioria impunes ou receberam penas pecuniárias ridículas; os pequenos ladrões e as pequenas ladras são punidos com penas de prisão draconianas.

Passando fome e frio nas celas quase sem aquecimento, psiquicamente abatidos pelo horror dos quatro anos de guerra, esses enjeitados sociais
esperavam misericórdia e alívio.

Mas
esperam em vão. O último dos Hohenzollern, soberano bondoso preocupado em fazer os povos degolarem-se uns aos outros e em distribuir coroas, esqueceu-se dos infelizes. Desde a conquista de Liège não houve durante quatro anos qualquer anistia digna de menção, nem sequer no feriado oficial dos escravos alemães, o “aniversário do Kaiser”.

Agora a revolução proletária preci
sa iluminar com um pequeno raio misericordioso a existência sombria nas prisões e nas penitenciárias, diminuir as sentenças draconianas, abolir o bárbaro sistema disciplinar – correntes, açoites! –, melhorar no que for possível o tratamento e os suprimentos médicos, a alimentação e as condições de trabalho. É uma questão de honra!

O sistema penal exist
ente, profundamente impregnado de um brutal espírito de classe e da barbárie do capitalismo, precisa ser extirpado de vez. É preciso começar imediatamente uma reforma de base do sistema penal. É evidente que uma reforma totalmente nova, no espírito do socialismo, só pode ser estabelecida sobre o fundamento de uma nova ordem econômica e social, pois tanto crimes quanto castigos estão em última instância enraizados nas condições econômicas da sociedade. No entanto, uma medida radical pode ser adotada sem mais: a pena de morte, a maior vergonha do ultra-reacionário código penal alemão, precisa desaparecer imediatamente! Por que hesita o governo dos trabalhadores e soldados? Será que o nobre Beccaria, que há duzentos anos denunciou em todas as línguas civilizadas a infâmia da pena de morte, não existiu para vocês, Ledebour, Barth, Däumig? Vocês não têm tempo, têm pela frente mil preocupações, mil dificuldades, mil tarefas. É verdade. Mas peguem o relógio e olhem quanto tempo leva para abrir a boca e dizer: está abolida a pena de morte! Ou será que entre vocês deveria haver a esse respeito um longo debate com votação? Será que nesse caso vocês também se deixariam enredar num emaranhado de formalidades, considerações de competência, questões de rubricas, carimbos e futricas semelhantes?

Ah, como é alemã esta revolução alemã! Como é prosaica, pedante, sem entusiasmo, sem brilho, sem grandeza. A pena de morte esquecida é somente um pequeno detalhe isolado.
Mas é precisamente nesses pequenos detalhes que se trai de costume o espírito intrínseco do todo!

P
eguemos qualquer livro de história da grande Revolução Francesa, por exemplo, o árido Mignet. É possível ler esse livro sem o coração palpitante e a fronte em brasa? Quem abriu qualquer página ao acaso pode largá-lo antes de ter ouvido, empolgado, sem fôlego, o último acorde desse grandioso acontecimento? É como uma sinfonia de Beethoven, intensamente poderosa, uma tempestade trovejando no órgão dos tempos, grande e soberba, tanto nos erros quanto nos acertos, tanto na vitória quanto na derrota, tanto em seu primeiro grito ingênuo de júbilo quanto em seu último suspiro. E o que acontece agora na Alemanha? A cada passo, pequeno ou grande, sente-se que são sempre os velhos e bem comportados companheiros da defunta social-democracia alemã, para quem os carnês de filiação eram tudo, os homens e o espírito, nada. Não devemos nos esquecer contudo que não se faz história sem grandeza de espírito, sem pathos moral, sem gestos nobres.

Liebknecht e eu, ao deixarmos os hospitaleiros espaços onde vivemos ultimamente – ele
, seus irmãos de penitenciária, de cabeça tosada, eu, minhas pobres queridas ladras e mulheres da rua com quem vivi três anos e meio debaixo do mesmo teto – nós lhes prometemos solenemente, enquanto nos acompanhavam com o olhar triste: não os esqueceremos!

E
xigimos do Comitê Executivo dos conselhos de operários e soldados um abrandamento imediato do destino dos prisioneiros em todos os cárceres da Alemanha!

Exigimos a supressão da pena de morte do código penal alemão!


Durante os quatro anos de
genocídio imperialista o sangue correu em torrentes, em riachos. Agora é preciso guardar respeitosamente cada gota dessa seiva preciosa em recipientes de cristal. A mais violenta atividade revolucionária e a mais generosa humanidade – este é o único e verdadeiro alento do socialismo. Um mundo precisa ser revirado, mas cada lágrima que cai, embora possa ser enxugada, é uma acusação; e aquele que, para realizar algo importante, apressadamente e com brutal descuido esmaga um pobre verme, comete um crime.

Die Rote Fahne (Berlim), nº3, 18 de novembro de 1918.

Tradução: Isabel Loureiro

NOTAS

(1) Em 3 de outubro de 1918 o príncipe Max de Bade foi nomeado chanceler, tendo formado um governo parlamentar com o objetivo de paralisar o movimento revolucionário na Alemanha, salvar as classes dominantes e negociar com a Entente. Faziam parte do governo, entre outros, o líder da bancada do partido do Centro, Adolf Gröber, Friedrich von Payer como representante do Partido do Progresso, Philipp Scheidemann e Gustav Bauer como representantes da social-democracia.

Retirado do Site do Instituto Rosa Luxemburgo Stiftung

Nós, Latino-americanos


Somos todos irmãos
Mas não porque tenhamos
a mesma mãe e o mesmo pai:
temos é o mesmo parceiro que nos trai.

Somos todos irmãos
Não porque dividamos
O mesmo teto e a mesma mesa:
Dividamos a mesma espada
Sobre nossa cabeça.

Somos todos irmãos
Não porque tenhamos
O mesmo berço, o mesmo sobrenome:
Temos um mesmo trajeto
De sanha e fome.

Somos todos irmãos
Não porque seja o mesmo o sangue
Que no corpo levamos:
O que é o mesmo é o modo
Como o derramamos.

Ferreira Gullar

Sobre a Ditadura Revolucionária do Proletariado

“A diferença fundamental entre a Ditadura do Proletariado e a Ditadura das outras classes, da Ditadura dos Latifundiários na Idade Média, da Ditadura da Burguesia em todos os países capitalistas civilizados, reside em que a Ditadura dos Latifundiários e da Burguesia representava a opressão violenta da resistência da maioria esmagadora da população, nomeadamente a opressão dos trabalhadores. Pelo contrário, a Ditadura do Proletariado é a opressão violenta da resistência dos exploradores, i.e. de uma minoria ínfima da população, dos Latifundiários e Capitalistas.Disso resulta que a Ditadura do Proletariado deverá portar, consigo, inegavelmente, não apenas, dito genericamente, uma modificação das formas e das instituições da democracia, mas sim um tal modificação delas que os escravizados pelo capitalismo, as classes trabalhadoras, execerão, efetivamente, a democracia em uma medida jamais vista no mundo antes.Realmente, a forma da Ditadura do Proletariado, que já foi praticamente elaborada, i.e. o Poder Soviético na Rússia, o Sistema de Conselhos na Alemanha, os Comitês de Fábrica e outras instituições soviéticas análogas em outros países, significa e materializa precisamente para as classes trabalhadoras, i.e. para a maioria esmagadora da população, uma grande oportunidade para se servir dos direitos democráticos e liberdades, tal como jamais existiu, mesmo que aproximadamente, nas melhores e mais democráticas repúblicas burguesas(p. 479).”[1]


[1] Cf. LÊNIN, VLADIMIR I. Thesen und Referat über bürgerliche Demokratie und Diktatur des Proletariats 4. März. I Kongreß der Komm. Internationale (Teses e Exposição acerca da Democracia Burguesa e Ditadura do Proletariado de 4 de Março. I Congresso da Internacional Comunista), in : W. I. Lenin Werke, Vol. XXVIII (De Julho de 1918 à Março de 1919), Berlim, 1959, p. 479.



sábado, 7 de fevereiro de 2009

Deusas do cotidiano

O nome dessas mulheres eu não sei, não lembro e nem preciso saber. São nomes comuns em meio a tantos outros espalhados por esse chão duro chamado Brasil.Mas a maioria delas eu conheço, e conheço bem, são donas de um mesmo destino: as miseráveis que roubam remédios para aliviar as angústias dos filhos.É quando a pobreza não é dor, é angústia também.São as ladras de Victor Hugo.

Donas da insustentável leveza do ser, as infantes guerreiras enfrentam a lei da gravidade.

Permanecem de pé ante aos dragões comedores de sonhos que escondem na gravidade da lei. Das trincheiras do ninho enfrentam moinhos de mós afiadas para protegerem a pança dos pequeninos.São as Quixotes de Miguel de Cervantes.Místicas, não raro, estão sempre nuas em sentimentos. Quando precisam, cruas, esmolam com o corpo, e se postam à espera do punhal do prazer que cravam no seu ventre. È quando o prazer humilha.São as habitantes do inferno de Dante.

Rainhas de castelos de madeiras, sustentam os filhos como príncipes, e os protegem da fome, do frio, e da vida dura e cruel que insiste em bater na porta dessas mulheres de panela vazia. Quanto aos reis, também são os mesmos: os covardes dos vinhos da ira.Mágicas, esses anjos se transformam em rochas, quando a vida pede grão de areia. Em flores quando rastejam e espinhos quando protegem. Essas mulheres são aquelas que limpam tapetes, mas não admitem serem pisadas. São domésticas, mas não aceitam serem domesticadas.Sim, são as deusas do dia a dia.

Sérgio Vaz

Linguagem e medo global

Na era vitoriana, as calças não podiam ser mencionadas na presença de uma senhorita.
Hoje, não fica bem dizer certas coisas na presença da opinião pública.

O capitalismo ostenta o nome artístico de economia de mercado, o imperialismo chama-se globalização.

As vítimas do imperialismo chamam-se países em vias de desenvolvimento, o que é como chamar de crianças aos anões.

O oportunismo chama-se pragmatismo, a traição chama-se realismo.

Os pobres chamam-se carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.

A expulsão das crianças pobres do sistema educativo é conhecida sob o nome de deserção escolar.

O direito do patrão a despedir o operário sem indenização nem explicação chama-se flexibilização do mercado laboral

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria.

Ao invés de ditadura militar, diz-se processo.

As torturas chamam-se pressões ilegais, ou também pressões físicas e psicológicas.

Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões e sim cleptómanos.

O saqueio dos fundos públicos pelos políticos corruptos responde pelo nome de enriquecimento ilícito.

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos automóveis.

Para dizer cegos, diz-se não visuais, um negro é um homem de cor.

Onde se diz longa e penosa enfermidade deve-se ler cancro ou SIDA.

Doença repentina significa enfarte, nunca se diz morte e sim desaparecimento físico.

Tão pouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares.

Os mortos em batalha são baixas, e as de civis que a acompanham são danos colaterais.

Em 1995, aquando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: "Não me agrada essa palavra bomba, não são bombas. São artefactos que explodem".

Chamam-se "Conviver" alguns dos bandos que assassinam pessoas na Colômbia, à sombra da protecção militar.

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade a maior prisão da ditadura uruguaia.

Chama-se Paz e Justiça o grupo paramilitar que, em 1997, metralhou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, no momento em que rezavam numa igreja da aldeia de Acteal, em Chiapas.


Eduardo Galeano

Poema Brasileiro




No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes de completar
8 anos de idade

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade


(1962)Ferreira Gullar

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Persépolis: autobiografia de uma lutadora no Irã

Em branco e preto e com traços bastante expressivos e simples, Persépolis é uma das Histórias em quadrinhos mais importantes das últimas décadas. Conta as memórias de Marjane Satrapi – ou Marji – que tinha apenas 10 anos quando ocorreu a revolução iraniana de 1979 que derrubou o Xá Mohamed Reza Pahlevi.

Nesta revolução, houve uma participação popular muito grande, com a formação dos shoras (conselhos populares similares aos sovietes da Revolução Russa), dos quais faziam parte setores expressivos do movimento operário, como os petroleiros. O Xá era uma marionete do imperialismo norte-americano e as pessoas lutavam para, com a queda de Pahlevi, conquistar maior democracia.

Os pais de Marji eram parte de uma classe média intelectualizada socialista. Todos os dias, iam às manifestações contrárias ao regime. No início, Marji não entendia o motivo que levava seus pais a fazerem isto. Tampouco entendia por que tinha vergonha de andar no Cadillac de seu pai.

No entanto, pouco a pouco, entre conversas imaginárias com Deus e Karl Marx, entre participações escondidas em manifestações e a leitura de livros e quadrinhos, acabou compreendendo que a razão de sua vergonha e da revolução era a mesma: “a diferença entre as classes sociais”.

Como em todo o trabalho de Marjane, suas memórias familiares se fundem com a história e a situação política do Irã. Conforme escrito na introdução dos quadrinhos, Marjane herdou toda a história da região da antiga Pérsia e foi a partir desse material que produziu o “primeiro álbum de história em quadrinhos iraniano”.

A revolução foi vitoriosa. Marjane conta que no dia em que o Xá foi embora, “o país fez a maior festa de sua história”. Comemoravam a conquista efetiva de sua liberdade. Comemoravam o retorno dos milhares de presos políticos às suas casas.

Pela primeira vez em 30 anos, a avó de Marji pôde, enfim, reunir seus seis filhos. Entre eles, estava o tio Anouche, parte da esquerda socialista iraniana que foi massacrada pela direção teocrática depois da revolução.



A queda de Pahlevi significou uma terrível derrota para os Estados Unidos. O imperialismo buscava o controle dos ricos poços de petróleo do Irã e, evidentemente, não abandonaria uma de suas peças-chave na região. Armaram o Iraque para que declarasse guerra ao Irã. Como disse o pai de Marji, “a verdade é que, enquanto existir petróleo no Oriente Médio, não vamos saber o que é paz...”.

A hierarquia religiosa aproveitou a guerra contra o Iraque para desmobilizar as massas, atacando os comitês operários, perseguindo o movimento sindical independente e massacrando a esquerda socialista. Com violento esforço reacionário, acabaram com a revolução estabelecendo um Estado burguês ditatorial de ideologia religiosa.

Marji mostra toda a sua alegria e exaltação na queda do Xá e sua confusão com a ascensão dos cléricos. Após ter estudado numa escola laica e bilíngüe, Marji foi obrigada a freqüentar um colégio religioso, a usar o véu e a se submeter a uma série de novas proibições particulares às mulheres. Bastante influenciada pelos questionamentos feministas de sua avó e pela experiência sofrida com o choque cultural dos tempos nos quais viveu na Áustria, Marjane não entendia o motivo daquela peça obrigatória de vestuário.



Tampouco via sentido nas desigualdades cada vez mais abismais entre mulheres e homens de seu país e entre a hierarquia clerical e os trabalhadores e jovens. Estes últimos eram mandados em atacado à guerra em troca de uma pretensa garantia de entrada no paraíso. Em seus oito anos, a guerra entre Irã e Iraque produziu mais de um milhão de mortos.

Em 2007, os quadrinhos foram transformados em animação. No dia de sua exibição oficial, o governo iraniano divulgou uma nota de repúdio condenando a forma como o país é representado na obra de Marjane Satrapi.

Transitando entre o humor e o drama, ao contrário das acusações do governo iraniano, Persépolis não condena o Irã, tampouco idealiza o Ocidente. Em tom confessional, os quadrinhos projetam o aspecto humano das convulsões políticas e sociais que resultaram da deposição revolucionária de uma monarquia ditatorial pró-imperialista, da disputa dos destinos da revolução entre os cléricos e a esquerda socialista, e a formação de uma república islâmica capitalista e repressiva. Um retrato poético, ousado e único.

Nadia Khalil, da redação do jornal Al Baian
Fonte: Portal do PSTU

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Salário

Ó que lance extraordinário:
aumentou o meu salário
e o custo de vida, vário,
muito acima do ordinário,
por milagre monetário
deu um salto planetário.

Não entendo o noticiário.
Sou um simples operário,
escravo de ponto e horário,
sou caxias voluntário
de rendimento precário,
nível de vida sumário,
para não dizer primário,
e cerzido vestuário.
Não sou nada perdulário,
muito menos salafrário,
é limpo meu prontuário,
jamais avancei no Erário,
não festejo aniversário
e em meu sufoco diário
de emudecido canário,
navegante solitário,
sob o peso tributário,
me falta vocabulário
para um triste comentário.
Mas que lance extraordinário:
com o aumento de salário,
aumentou o meu calvário!

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Fórum Social Mundial promove ‘limpeza’ em periferia

do portal do PSTU

• O Fórum Social Mundial (FSM) continua sendo um espaço que aglutina centenas de organizações sociais e milhares de ativistas de diversos países e ideologias. O FSM sempre foi dirigido e organizado pelo PT e pela juventude do PCdoB (UJS). Desta vez, é a própria governadora Ana Júlia (PT), quem investirá pesado no evento.

As obras em volta do acampamento da juventude já começaram. O acampamento será em duas universidades: Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). Elas são cercadas pelo Rio Guamá e por duas grandes periferias, Terra-Firme e Guamá. Por esse motivo, uma fileira de 110 casas, inicialmente, foram compradas e derrubadas para alargar a rua em torno do acampamento. Em seguida, porém, derrubaram muito mais delas.

O governo está comprando as casas por R$ 3 mil, R$ 1.800 e até por R$ 500. Além de valores irrisórios, os moradores não tem direito a um alojamento provisório nem prorrogação dos prazos. Isso os coloca numa situação a caminho da indigência. Após a assinatura do morador, ele espera por um dia improvável em que a migalha cairá em sua conta. Após isso, lhe restam apenas cinco dias para sair. Caso não saia, as autoridades competentes o despejam a força.

Os que se recusam a assinar, recebem intimações judiciais e visitas de advogados com policiais em tom ameaçador. Os moradores disseram que as mulheres são as mais pressionadas. Segundo eles, o governo alega que se trata de uma área de invasão e diz que as pessoas não tem direito a nada. É isso que o governo chamado de popular e democrático do PT pensa sobre as ocupações urbanas e populares?

As primeiras casas derrubadas foram compradas por preços bem melhores. Aparentemente, o objetivo do governo era isolar as casas restantes e forçar os moradores a aceitarem quantias irrisórias. Outra tática importante do governo foi a de começar as demolições durante as férias da UFPA para evitar prováveis atritos com o movimento estudantil. No ano passado, os ativistas ocuparam a reitoria daquela universidade e, certamente, apoiariam os habitantes.

Muitos moradores já perderam seus empregos devido aos abalos psicológicos. O clima de depressão é geral. Ficamos sabendo de uma senhora de 83 anos, conhecida como a “mãezona” da vizinhança, que foi despejada. Ela vivia da solidariedade da comunidade. O governo garantiu que seria pago um aluguel a ela até que encontrasse outra casa morar. A última notícia que tivemos foi de que está morando de favor num lugar distante. O dinheiro do aluguel nunca chegou.

A Organização do FSM alega que não tem nada que ver com o problema e que são obras do governo não-ligadas ao Fórum. Já é bastante contraditório que digam isso de um governo que eles mesmos apóiam. Fomos conferir com o órgão responsável pela obra, a COHAB, e ouvimos que “as obras não tem a ver com o Fórum Social Mundial mas, temos ordens para aprontar essa primeira etapa de remanejamento desse pessoal até janeiro, para que seja estreado durante o evento”.

Agora fica mais claro porque tamanha truculência e pressa nesse projeto. Tudo em nome de “um outro mundo possível”.

Dinorah da Silva e Érica Correa, de Belém (PA)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu sorriso.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sabe ao céu a procurar-me
a abre-me todas
as portas da vida

À beira mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma...

Ria da noite,
do dia, da lua,
ria das ruas
tortas da ilha,
ria deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda

domingo, 25 de janeiro de 2009

O Açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café
Nesta manhã de Ipanema
Não foi produzido por mim
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
E afável ao paladar
Como beijo de moça, água
Na pele, flor
Que se dissolve na boca. Mas este açúcar
Não foi feito por mim.

Este açúcar veio
Da mercearia da esquina e
Tampouco o fez o Oliveira,
Dono da mercearia.
Este açúcar veio
De uma usina de açúcar em Pernambuco
Ou no Estado do Rio
E tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
E veio dos canaviais extensos
Que não nascem por acaso
No regaço do vale.

Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema

Ferreira Gullar

sábado, 24 de janeiro de 2009

Blogue novo

Pessoas, desde o último dia 23, passa a existir um novo Blog, chamado Mangue Wireless, cujo manifesto editorial foi postado por Eli, dono do Blog Antes Quixote, e também tem a companhia de Mário Jr. do Blog do Mário Júnior, da Naísia, quem não tem nenhum outro blog e do Bicho-grilo que mantém o Blog Mordida de Preá.

Esperamos que a lista de colaboradores cresça.

E vocês que já visitam esse espaço passa a ter outro espaço para diálogos, polêmicas, etc, etc³

ta dado recado!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Sim, Camarada

Sim, Camarada, é hora de jardim
E é hora de batalha, cada dia
É sucessão de flor e sangue,
Nosso tempo nos entregou amarrados
A regar jasmins
Ou a dessangrar-nos numa rua escura,
A virtude ou a dor se repartiram
Em zonas frias, em mordentes brasas,
E não havia outra coisa que eleger,
Os caminhos do céu,
Antes tão transitados pelos santos,
Estão hoje povoados por especialistas.

Já desapareceram os cavalos.

Os heróis vestidos de batráquios,
Os espelhos vivem vazios
Porque a festa é sempre em outra parte,
Onde já não estamos convidados
E há brigas nas portas.


Por isso este é o penúltimo chamado,
O décimo sincero toque
Do meu sino,
Ao jardim, camarada, à açucena,
À macieira, ao cravo intransigente,
À fragrância da flor de laranjeira,
E logo aos deveres da guerra.

Delgada é nossa pátria
E em seu despido fio de faca
Arde nossa bandeira delicada.


Pablo Neruda

Como se fabrica um mainstream...

Passei uns dias na minha terra natal e é impressionante perceber que nada mudou... e me parece que como diz uma música do Mopho..."Nada vai mudar".

Bom primeiro deixa eu falar do que se trata essa postagem, trata da política cultural implementada na cidade de aracaju desde a eleição do PT, para a prefeitura em 2000, e com ela que eu quero iniciar uma polêmica, que não vai parar nesse post, apenas vamos iniciar.

Acontece que na última década um certo "mainstream" foi forjado, fabricado como queiram na cidade de Aracaju, bandas como Reação, Naurêa e Maria Escobona, tocam em quase todos os eventos da prefeitura desde 2000.

Não quero me deter aqui sobre a qualidade sonora dessas bandas, mas posso dizer que dessas três só respeito mesmo a Reação, apesar de ser sabido que não sou lá muito fã de reggae, o fato é que por motivos vários essas bandas estão sempre presentes, criando praticamente um monopólio da música sergipana, e do dinheiro público nos últimos anos.

A olhos vistos houve, pelo menos na aparência uma mudança qualitativa na política cultural seja na prefeitura, seja no governo do Estado de Sergipe, depois que o PT e o PC do B, juntos com lideranças da direita Sergipana chegaram ao poder no estado. Os slogan Aracaju de Todos, parecia estar vingando, mas sempre na aparência... a essência da política continuava a mesma!

Assim sendo, logo que se "muda" o governante mudam também as figuras que frequentam as rodas de poder do Estado, e obviamente isso se reflete na política cultural. Bandas como Karne Krua, Snooze, Plástico Lunar(pra citar algumas das mais antigas), as mesmas que a anos vivem com seus amplificadores, e instrumentos músicais pra lá e pra cá, carregando várias vezes nas costas, dando suor de verdade para construir algo.

A "cena" independente Sergipana, por muitas vezes avessa à polêmicas, colocou no gueto banda que são tão boas(e na minha opinião melhores) do que qualquer uma que faz parte do maistream forjado à força e não pela qualidade dos seus músicos ou músicas(aqui de novo a execessão é a Reação e talvez pelos músicos e não pelas músicas a Maria Escobona).

O meio artístico sempre foi cheio de polêmicas, e se resisitiu a té hoje, foi em boa parte Às diversas polêmicas que rolaram entre músicos, poetas, escritores, artistas plásticos, etc... Mas em Aracaju quem manda é a máquina governamental... o ESTADO! Por tanto ou se enquadra ou tá fora!

BELOS GOVERNOS DEMOCRÁTICOS E POPULARES!

Na minnha humilde opinião, o que ta aí mudou os artistas, mudaram as opções pelos estilos músicais, mas na vida real e concreta não mudou a política... Onde por exemplo que foi criado um fórum para os artistas decidirem a política para as artes, alguns mandam, outros obedecem... alguns poucos batem de frente!

Eu me coloco aqui com os que batem de frente!

Coisas absurdas acontecem, por exemplo aniversário da Aperipê, emissora de rádio estatal, por tanto PÚBLICA, show com(de novo na minha opinião) a maior banda de rock da história do Brasil e pra mim, está entre as 10 melhores do mundo de todos os tempos: Os mutantes, maravilha, gostaria muito de estar nesse show, assim como gostaria de ver a Plástico Lunar abrindo o show dos caras, mas não, toca a Naurêa... recebendo um bom cachê muito provavelmente, e olha tenho certeza pelas influências musicais da Plástico Lunar, pra abrir pros Mutantes, tenho certeza, eles tocariam até de graça!!!

Mas o problemas é que algumas pessoas que achavam que a máquina Pública eram delas, tiraram férias e entraram os novos donos... ou aqueles que se acham donos com o nosso dinheiro, pago atravéz de todos os impostos que pagamos diariamente, e assim colocam seus interesses pessoais a cima de qualquer coisa!

Em geral, bandas mais conhecidas tocam por ter mais público, e assim os governos gastam mais dinheiro, mas divertem mais o "povo"...

A grande questão a se pensar é onde que por exemplo a Naurêa tem mais público e do que a Karne Krua ou a Plástico Lunar?

Sobre o mainstream, vou pegar uma definição internética já que estou na internet nesse momento, definição no wikipédia:

"Mainstream (em português corrente principal) é o pensamento corrente da maioria da população. Este termo é muito utilizado relacionado às artes em geral (música, literatura, etc).

Não vejo
e nenhuma banda dessas algo que seja "pensamento corrente da maioria da população", e por tanto não consigo compreender o por que da insistência com alguns poucos e não uma abertura maior para outros artistas.

Se a prefeitura e governo do Estado(dirigidos pelo PT e pelo PC do B) é realmente democrática, que abra espaços pra todo mundo, não só tocar, mas pra todo mundo discutir a sua política cultural, educacional, de saúde, que se criem conselhos, onde as pessoas discutam de fato as coisas, façam suas críticas, suas polêmicas, etc...

Quem tem medo de polêmica é por que sabe que ta tudo errado!

Aqui abro espaço no meu blog, para todos aqueles que de alguma forma estão sendo isolados e não compartilham com o Monopólio político-cultural existente no estado de Sergipe!

Aqui cabe uma explicação do por que eu disse que a Reação é a excessão(que sempre confirma a regra).

Bom pela segunda vez deixo claro que não gosto de Reggae, mas é impossível escutar essa banda e ver que os caras são bons de verdade, músicas boas, críticas necessárias, e talz, apenas acredito que devem ter muito cuidado para não se enquadrarem na moldura do Estado. Esses podem e devem e ir muito mais lionge do que os outros, por uma simples causa: São bons, humildes, e não dependem da prefeitura ou do Estado para fazer música boa!

Fabiano Santos
 
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