Pérola

"Nós entendemos que Israel tem o direito de se defender pois nesses últimos anos o Hamas lançou diversos foguetes na região"
Barack Obama

segunda-feira, 9 de março de 2009

Diante do mar

Oh, mar, enorme mar, coração feroz
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.

Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
"Piedade, piedade para o que mais ofenda".

Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.

Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.

Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.

Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria...
Ah, eu sonhava ser como tu és.

Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.

Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar!... Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.

E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!

Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança...
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.


Alfonsina Storni
Tradução de José Agostinho Baptista

domingo, 8 de março de 2009

O Dia da Mulher

Nesse dia fazemos uma homenagem à mulheres, com um texto da Revolucionária Russa, Alexandra Kollontai.

O dia Da Mulher

O quê é o dia da Mulher? É realmente necessário? Será que é umha concessom às mulheres da classe burguesa, às feministas e sufragistas? Será que é nocivo para a unidade do movimento operário? Estas questons ainda se escuitam na Rússia, embora já nom no estrangeiro. A vida mesma deu umha resposta clara e eloqüente a tais perguntas.

O Dia da Mulher é um elo na longa e sólida cadeia da mulher no movimento operário. O exército organizado de mulheres trabalhadoras cresce cada dia. Há vinte anos, as organizaçons operárias nom tinham mais do que grupos dispersos de mulheres nas bases dos partidos operários... Agora os sindicatos ingleses tenhem mais de 292.000 mulheres sindicadas; na Alemanha som à roda de 200.000 sindicadas e 150.000 no partido operário, na Áustria há 47.000 nos sindicatos e 20.000 no partido. Em toda as parte, em Itália, na Hungria, na Dinamarca, na Suécia, na Noruega e na Suíça, as mulheres da classe operária estám a organizar-se a si próprias. O exército de mulheres socialistas tem perto de um milhom de membros. Umha força poderosa! Umha força com a qual os poderes do mundo devem contar quando se pom sobre a mesa o tema do custo da vida, a segurança da maternidade, o trabalho infantil ou a legislaçom para proteger os trabalhadores.

Houve um tempo em que os homens trabalhadores pensavam que deveriam carregar eles sós sobre os seus ombros o peso da luita contra o capital, pensavam que eles sós deviam enfrentar-se ao "velho mundo", sem o apoio das suas companheiras. Porém, como as mulheres da classe trabalhadora vam entrar nas fileiras de aqueles que vendem o seu trabalho em troca de um salário, forçadas a entrar no mercado laboral por necessidade, porque o seu marido ou pai estava no desemprego, os trabalhadores vam começar a reparar em que deixar atrás as mulheres entre as fileiras dos "nom-conscientes" era danar a sua causa e evitar que avançasse. Que nível de consciência posui umha mulher que senta no fogom, que nom tem direitos na sociedade, no Estado ou na família? Ela nom tem ideias próprias! Todo se fai segum ordena o seu pai ou marido...

O atraso e a falta de direitos sofridos polas mulheres, a sua dependência e indiferença nom som beneficiosos para a classe trabalhadora, e de facto som um mal directo para a luita operária. Mas, como entrará a mulher nesta luita, como acordará?

A social-democracia estrangeira nom vai encontrar soluçom correcta imediatamente. As organizaçons operárias estavam abertas às mulheres, mas só umhas poucas entravam. Por quê? Porque a classe trabalhadora, ao começo, nom vai dar por si que a mulher trabalhadora é o membro mais degradado, tanto legal quanto socialmente, da classe operária, que ela foi espancada, intimidada, encurralada ao longo dos séculos, e que para estimular a sua mente e o seu coraçom necessita umha aproximaçom especial, palavras que ela, como mulher, entenda. Os trabalhadores nom se vam dar conta imediatamente de que neste mundo de falta de direitos e de exploraçom, a mulher está oprimida nom só como trabalhadora, mas também como mae, mulher. Porém, quando membros do partido socialista operário entendêrom isto, figérom sua a luita pola defesa das trabalhadoras como assalariadas, como maes, como mulheres.

Os socialistas em cada país começam a demandar umha protecçom especial para o trabalho das mulheres, seguranças para as maes e os seus filhos, direitos políticos para as mulheres e a defesa dos seus interesses.

Quanto mais claramente o partido operário percebia esta dicotomia mulher/trabalhadora, mais ansiosamente as mulheres se uniam ao partido, mais apreciavam o rol do partido como o seu verdadeiro defensor e mais decididamente sentiam que a classe trabalhadora também luitava polas suas necessidades. As mulheres trabalhadoras, organizadas e conscientes, figérom muitíssimo para elucidar este objectivo. Agora, o peso do trabalho para atrair as trabalhadoras ao movimento socialista reside nas mesmas trabalhadoras. Os partidos em cada país tenhem os seus comités de mulheres, com os seus secretariados e burós para a mulher. Estes comités de mulheres trabalham na ainda grande populaçom de mulheres nom conscientes, levantando a consciência das trabalhadoreas em seu redor. Também examinam as demandas e questons que afectam mais directamente à mulher: protecçom e provisom para as maes grávidas ou com filhos, legislaçom do trabalho feminimo, campanha contra a prostituiçom e o trabalho infantil, a demanda de direitos políticos para as mulheres, a campanha contra a suba do custo da vida...

Assim, como membros do partido, as mulheres trabalhadoras luitam pola causa comum da classe, enquanto ao mesmo tempo delineam e ponhem em questom aquelas necessidades e as suas demandas que lhes dim respeito mais directamente como mulheres, como donas de casa e como maes. O partido apoia estas demandas e luita por elas. Estas necessidades das mulheres trabalhadoras som parte da causa dos trabalhadores como classe.

No dia da mulher as mulheres organizadas manifestam-se contra a sua falta de direitos. Mas alguns dim, por quê esta separaçom das luitas das mulheres? Por quê há um dia da mulher, panfletos especiais para trabalhadoras, conferências e comício? Nom é, enfim, umha concessom às feministas e sufragistas burguesas? Só aqueles que nom compreendem a diferença radical entre o movimento das mulheres socialistas e as sufragistas burguesas podem pensar desta maneira.

Qual o objectivo das feministas burguesas? Conseguir os mesmos avanços, o mesmo poder, os mesmo direitos na sociedade capitalista que possuem aogra os seus maridos, pais e irmaos. Qual o objectivo das operárias socialistas? Abolir todo o tipo de privilégios que derivem do nascimento ou da riqueza. À mulher operária é-lhe indiferente se o seu patrom é um homem ou umha mulher.

As feministas burguesas demandam a igualdade de direitos sempre e em qualquer lugar. As mulheres trabalhadoras respostam: demandamos direitos para todos os cidadaos, homens e mulheres, mas nós nom só somos mulheres e trabalhadoras, também somos maes. E como maes, como mulheres que teremos filhos no futuro, demandamos umha atençom especial do governo, protecçom especial do Estado e da sociedade.

As feministas burguesas estám luitando para conseguir direitos políticos: também aqui os nossos caminhos se separam. Para as mulheres burguesas, os direitos políticos som simplesmente um meio para conseguir os seus objectivos mais comodamente e com mais segurança neste mundo baseado na exploraçom dos trabalhadores. Para as mulheres operárias, os direitos políticos som um passo no caminho empedrado e difícil que leva ao desejado reino do trabalho.

Os caminhos seguidos polas mulheres trabalhadoras e as sufragistas burguesas separárom-se há tempo. Há umha grande diferença entre os seus objectivos. Há também umha grande contradiçom entre os interesses de umha mulher operária e as donas proprietárias, entre a criada e a senhora... portanto, os trabalhadores nom devem temer que haja um dia separado e assinalado como o Dia da Mulher, nem que haja conferências especiais e panfletos ou imprensa especial para as mulheres.

Cada distinçom especial para as mulheres no trabalho de umha organizaçom operária é umha forma de elevar a consciência das trabalhadoras e aproximá-las das fileiras de aqueles que estám a luitar por um futuro melhor. O Dia da Mulher e o lento, meticuloso trabalho feito para elevar a auto-consciência da mulher trabalhadora estám servindo à causa, nom da divisom, mas da uniom da classe trabalhadora.

Deixa um sentimento alegra de servir à causa comum da classe trabalhadora e de luita simultaneamente pola emancipaçom feminina inspire os trabalhadores a unirem-se à celebraçom do Dia da Mulher.

Alexandra kollontai, 1913

Fonte: Marxists.org

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Dor


Quisera esta tarde divina de outubro
passear pela beira longínqua do mar;
Que a areia de ouro, e as águas verdes,
e os céus puros me vissem passar.

Ser alta, soberba, perfeita, quisera,
como uma romana, para concordar
com as grandes ondas, e as rocas mortas
e as largas praias que apertem o mar.

Com o passo lento, e os olhos frios
e a boca muda, deixar-me levar;
ver como se rompem as ondas azuis,
contra os granitos e não pestanejar;
ver como as aves de rapina se comem
os peixes pequenos e não despertar;
pensar que puderam as frágeis barcas
Afundar-se nas águas e não suspirar;
Ver que se adianta a garganta ao ar,
O homem mais belo não desejar amar…

Perder o olhar, distraidamente,
perde-lo e que nunca o volte a encontrar:
E figura erguida entre céu e praia
sentir-me o esquecimento perene do mar.

Alfonsina Storni

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Paulo da Portela e o samba nos trilhos

• Em 31 de janeiro de 1949, o Rio de Janeiro parou. A poucas semanas do carnaval, a cidade perdia Paulo da Portela, com 47 anos, vítima de um ataque cardíaco. O comércio do bairro de Madureira fechou em luto e cerca de 15 mil pessoas foram se despedir do poeta, caminhando de sua casa, no subúrbio de Oswaldo Cruz, até o cemitério de Irajá.

Paulo Benjamin de Oliveira era então um dos mais conhecidos compositores, senão o principal. O número de pessoas em seu enterro só foi menor que em 1936, ao ser eleito “cidadão momo”. O título fez 100 mil pessoas se reunirem no centro do Rio. Um número impressionante, ainda mais para uma cidade que tinha 1,5 milhão de habitantes. A multidão fez o pesquisador Sérgio Cabral enxergar em Paulo “um dos maiores líderes populares que o Rio de Janeiro já conheceu”.

Paulo foi testemunha e personagem de grandes transformações no samba em anos que moldaram a folia. Ele recebeu seu sobrenome antes da escola. Ele e seus companheiros passaram a se reunir sob uma árvore, no número 461 da Estrada da Portela. A música atraiu e a roda virou bloco. Paulo precisava de um sobrenome. Virou Paulo da Portela.

Do bloco até o GRES Portela, foi pouco mais de uma década. Nesses anos, se reuniram em todo tipo de local, até dentro de um vagão de trem.

Nos trilhos
O trem partia da Central do Brasil às 18h04 para o subúrbio. O grupo estava sempre lá, no mesmo vagão. Disciplina que não combinava com a imagem do sambista que se tinha.

O negro alto, esguio e bonito comportava-se impecavelmente e era chamado de “professor”. Contemporâneo de Monarco, Cartola e Heitor dos Prazeres, Paulo acreditava na profissionalização de sambistas. Vestia terno, gravata e chapéu, no que era seguido por seus companheiros.

Wilson Moreira, numa entrevista, recordou de quando chegou à Portela. “Mestre Natal me ensinou que eu sempre fizesse o samba com elegância, como Paulo fazia. Esse é o seu maior legado”, afirma.

O pesquisador José Ramos Tinhorão, em depoimento ao documentário Paulo da Portela – Seu nome não caiu no esquecimento, destaca como era o carnaval de rua.

“Como a escola representava a sua comunidade, havia muito bairrismo. Ficaram famosas as brigas de integrantes na Praça Onze. E o Paulo da Portela era um diplomata. Primeiro, ele era muito maneiroso, se vestia bem, era bem falante. Ele não tinha esse negócio. Aparecia na Mangueira, era bem recebido. Outro ficaria com receio de ir”, afirma.

De origem proletária e de baixa escolaridade, Paulo era bem articulado e fazia discursos de improviso. Tornou-se uma espécie de porta-voz, sendo escutado por jornalistas, políticos e governantes.

Combatia o preconceito contra o povo negro. Sergio Cabral lembra que “nos primeiros desfiles, a polícia ficava na Praça Onze, impedindo que os foliões que terminavam de desfilar seguissem para o Centro. Eles eram obrigados a voltar, ou para o subúrbio ou para as favelas próximas”.

Paulo conseguiu ser escutado em momentos críticos. Como em 1945, após uma morte causada por briga num desfile. Aos jornais, ele disparou: “Os ladrões, os pilantras, os verdadeiros assassinos não estão na escola de samba. Estão na Avenida Rio Branco, de terno, colarinho e gravata”. A avenida reunia o poder financeiro e político do país e o discurso revela a visão política do sambista, que chegou a participar de comícios do PCB e compor para Luiz Carlos Prestes.

Abram alas
Em 1931, a Portela desfila como “Vai Como Pode”. Só em 1935, quando o desfile tornou-se oficial, a escola adotou seu nome. Paulo dirigiu os primeiros desfiles, com mudanças. Em 1939, trouxe os componentes com fantasias voltadas ao enredo, algo óbvio hoje em dia.

O pioneirismo surge com alegorias, alas e comissões de frente e na presença feminina, com duas vozes no samba. Venceu diversos carnavais, até mesmo depois que Paulo se desentendeu com a diretoria da escola, indo para a pequena Lira de Ouro.

Até a sua morte, em 1949, participa de programas de rádio, grava e segue compondo. Canta o jeito simples da vida suburbana, o amor e acima de tudo, a escola que seguiu em seu peito. Como nesse verso, de 1941: “Chora, Portela/ Minha Portela querida/ Eu que te fundei/ Serás minha toda vida”.

O sambista e o mito do Zé Carioca
Entre os muitos shows, Paulo da Portela apresentou-se a um grupo de norte-americanos. Walt Disney estava presente e reza a lenda que teria se inspirado em Paulo para criar o brasileiro Zé Carioca. Os personagens – Argentina e México também teriam os seus – faziam parte da política de boa vizinhança dos EUA, na Segunda Guerra.

O mito resume o caminho trilhado pelo sambista. Paulo atuou como um mediador, procurando aproximar dois lados de uma cidade, que continua dividida até hoje, por conta da segregação e da desigualdade.

Sua luta para retirar o samba da marginalidade encontrou eco entre governantes e a mídia. O Estado Novo enxergou a possibilidade de afirmar uma identidade nacional. A mídia viu ainda um negócio rentável. Ambos precisavam construir uma nova imagem da festa.

Uma reportagem da época resume o espírito. “Ordem absoluta. Prazer imenso. Constituem essas festas, até, número de turismo dos mais admiráveis e admirados. O governo faz bem. É festa legítima do povo. E só é alegre quem é feliz.”

Paulo da Portela enxergava o talento do povo negro, sua criatividade e apostava na música como caminho para a ascensão e a integração social. Não duvidava do potencial e da qualidade à sua volta. Mas, não só nas roupas, aceitou atender ao gosto da platéia formada pela elite branca e rica, que havia expulsado pobres e negros do centro há poucas décadas, num esforço para “limpar” a capital.

Agora, estes mesmos senhores queriam moldar o samba, como um papagaio preguiçoso, favelado e malandro e, acima de tudo, inofensivo.

A experiência coletiva e o prazer de criar foram sendo abandonados, substituídos pela obrigação e pelas normas do mercado de discos.

É legítima a busca pela aceitação do samba e pela profissionalização de quem faz o carnaval, como compositores, costureiras e o pessoal nos barracões. Mas, em nome dessa busca, a história do carnaval mostra como o mercado e as elites foram alterando a essência da festa.

Transformação vista por Heitor dos Prazeres, em 1957, oito anos após a morte do parceiro Paulo da Portela. Ele falou com amargura dos desfiles, dizendo que ao contrário do tempo em que se desfilava por amor, “hoje tudo é feito só com muito dinheiro”. Uma frase que soa como profecia, se olharmos os desfiles de hoje na Sapucaí. Mas que renova a esperança, quando vemos os milhões de foliões nos blocos de todo o país.

Talvez o que tenha passado despercebido é que esse sistema não permite a verdadeira libertação do povo negro e a plena satisfação de seus talentos. Para os capitalistas, somos todos papagaios.

Gustavo Sixel

Extraído do Portal do PSTU

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Um dever de honra

Rosa Luxemburgo

Não queríamos “anistia” nem perdão para as vítimas políticas do velho poder reacionário. Exigíamos nosso
direito à liberdade, à luta e à revolução para aquela centena de militantes corajosos e leais que definhavam nas penitenciárias e nas prisões por terem lutado, sob a ditadura militar do bando criminoso imperialista, pela liberdade do povo, a paz e o socialismo. Agora estão todos em liberdade. Estamos novamente enfileirados, prontos para o combate. Não foram os Scheidemann e seus cúmplices burgueses, com o príncipe Max (1) à frente, que nos libertaram. Foi a revolução proletária que fez explodir as portas de nossas casamatas.

Contudo,
outra categoria de habitantes infelizes desses edifícios lúgubres foi completamente esquecida. Ninguém pensou até agora nos milhares de figuras pálidas e macilentas que definham anos a fio atrás dos muros de prisões e penitenciárias expiando crimes comuns.

E no entanto são vítimas infelizes da infame ordem social contra a qual a revolução
se dirigiu; são vítimas da guerra imperialista, que levou a miséria e a desgraça aos extremos da mais insuportável tortura; que, ao custo de uma carnificina brutal, desencadeou em naturezas fracas, dotadas de taras hereditárias, os instintos mais vis.

A justiça de classe
burguesa funcionou mais uma vez como uma rede que deixa tranquilamente escapar de suas malhas os tubarões rapaces enquanto as pequenas sardinhas nelas se debatem desamparadas. Os especuladores, que ganharam milhões com a guerra, ficaram na sua maioria impunes ou receberam penas pecuniárias ridículas; os pequenos ladrões e as pequenas ladras são punidos com penas de prisão draconianas.

Passando fome e frio nas celas quase sem aquecimento, psiquicamente abatidos pelo horror dos quatro anos de guerra, esses enjeitados sociais
esperavam misericórdia e alívio.

Mas
esperam em vão. O último dos Hohenzollern, soberano bondoso preocupado em fazer os povos degolarem-se uns aos outros e em distribuir coroas, esqueceu-se dos infelizes. Desde a conquista de Liège não houve durante quatro anos qualquer anistia digna de menção, nem sequer no feriado oficial dos escravos alemães, o “aniversário do Kaiser”.

Agora a revolução proletária preci
sa iluminar com um pequeno raio misericordioso a existência sombria nas prisões e nas penitenciárias, diminuir as sentenças draconianas, abolir o bárbaro sistema disciplinar – correntes, açoites! –, melhorar no que for possível o tratamento e os suprimentos médicos, a alimentação e as condições de trabalho. É uma questão de honra!

O sistema penal exist
ente, profundamente impregnado de um brutal espírito de classe e da barbárie do capitalismo, precisa ser extirpado de vez. É preciso começar imediatamente uma reforma de base do sistema penal. É evidente que uma reforma totalmente nova, no espírito do socialismo, só pode ser estabelecida sobre o fundamento de uma nova ordem econômica e social, pois tanto crimes quanto castigos estão em última instância enraizados nas condições econômicas da sociedade. No entanto, uma medida radical pode ser adotada sem mais: a pena de morte, a maior vergonha do ultra-reacionário código penal alemão, precisa desaparecer imediatamente! Por que hesita o governo dos trabalhadores e soldados? Será que o nobre Beccaria, que há duzentos anos denunciou em todas as línguas civilizadas a infâmia da pena de morte, não existiu para vocês, Ledebour, Barth, Däumig? Vocês não têm tempo, têm pela frente mil preocupações, mil dificuldades, mil tarefas. É verdade. Mas peguem o relógio e olhem quanto tempo leva para abrir a boca e dizer: está abolida a pena de morte! Ou será que entre vocês deveria haver a esse respeito um longo debate com votação? Será que nesse caso vocês também se deixariam enredar num emaranhado de formalidades, considerações de competência, questões de rubricas, carimbos e futricas semelhantes?

Ah, como é alemã esta revolução alemã! Como é prosaica, pedante, sem entusiasmo, sem brilho, sem grandeza. A pena de morte esquecida é somente um pequeno detalhe isolado.
Mas é precisamente nesses pequenos detalhes que se trai de costume o espírito intrínseco do todo!

P
eguemos qualquer livro de história da grande Revolução Francesa, por exemplo, o árido Mignet. É possível ler esse livro sem o coração palpitante e a fronte em brasa? Quem abriu qualquer página ao acaso pode largá-lo antes de ter ouvido, empolgado, sem fôlego, o último acorde desse grandioso acontecimento? É como uma sinfonia de Beethoven, intensamente poderosa, uma tempestade trovejando no órgão dos tempos, grande e soberba, tanto nos erros quanto nos acertos, tanto na vitória quanto na derrota, tanto em seu primeiro grito ingênuo de júbilo quanto em seu último suspiro. E o que acontece agora na Alemanha? A cada passo, pequeno ou grande, sente-se que são sempre os velhos e bem comportados companheiros da defunta social-democracia alemã, para quem os carnês de filiação eram tudo, os homens e o espírito, nada. Não devemos nos esquecer contudo que não se faz história sem grandeza de espírito, sem pathos moral, sem gestos nobres.

Liebknecht e eu, ao deixarmos os hospitaleiros espaços onde vivemos ultimamente – ele
, seus irmãos de penitenciária, de cabeça tosada, eu, minhas pobres queridas ladras e mulheres da rua com quem vivi três anos e meio debaixo do mesmo teto – nós lhes prometemos solenemente, enquanto nos acompanhavam com o olhar triste: não os esqueceremos!

E
xigimos do Comitê Executivo dos conselhos de operários e soldados um abrandamento imediato do destino dos prisioneiros em todos os cárceres da Alemanha!

Exigimos a supressão da pena de morte do código penal alemão!


Durante os quatro anos de
genocídio imperialista o sangue correu em torrentes, em riachos. Agora é preciso guardar respeitosamente cada gota dessa seiva preciosa em recipientes de cristal. A mais violenta atividade revolucionária e a mais generosa humanidade – este é o único e verdadeiro alento do socialismo. Um mundo precisa ser revirado, mas cada lágrima que cai, embora possa ser enxugada, é uma acusação; e aquele que, para realizar algo importante, apressadamente e com brutal descuido esmaga um pobre verme, comete um crime.

Die Rote Fahne (Berlim), nº3, 18 de novembro de 1918.

Tradução: Isabel Loureiro

NOTAS

(1) Em 3 de outubro de 1918 o príncipe Max de Bade foi nomeado chanceler, tendo formado um governo parlamentar com o objetivo de paralisar o movimento revolucionário na Alemanha, salvar as classes dominantes e negociar com a Entente. Faziam parte do governo, entre outros, o líder da bancada do partido do Centro, Adolf Gröber, Friedrich von Payer como representante do Partido do Progresso, Philipp Scheidemann e Gustav Bauer como representantes da social-democracia.

Retirado do Site do Instituto Rosa Luxemburgo Stiftung

Nós, Latino-americanos


Somos todos irmãos
Mas não porque tenhamos
a mesma mãe e o mesmo pai:
temos é o mesmo parceiro que nos trai.

Somos todos irmãos
Não porque dividamos
O mesmo teto e a mesma mesa:
Dividamos a mesma espada
Sobre nossa cabeça.

Somos todos irmãos
Não porque tenhamos
O mesmo berço, o mesmo sobrenome:
Temos um mesmo trajeto
De sanha e fome.

Somos todos irmãos
Não porque seja o mesmo o sangue
Que no corpo levamos:
O que é o mesmo é o modo
Como o derramamos.

Ferreira Gullar
 
BlogBlogs.Com.Br