Pérola

"Nós entendemos que Israel tem o direito de se defender pois nesses últimos anos o Hamas lançou diversos foguetes na região"
Barack Obama

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Deusas do cotidiano

O nome dessas mulheres eu não sei, não lembro e nem preciso saber. São nomes comuns em meio a tantos outros espalhados por esse chão duro chamado Brasil.Mas a maioria delas eu conheço, e conheço bem, são donas de um mesmo destino: as miseráveis que roubam remédios para aliviar as angústias dos filhos.É quando a pobreza não é dor, é angústia também.São as ladras de Victor Hugo.

Donas da insustentável leveza do ser, as infantes guerreiras enfrentam a lei da gravidade.

Permanecem de pé ante aos dragões comedores de sonhos que escondem na gravidade da lei. Das trincheiras do ninho enfrentam moinhos de mós afiadas para protegerem a pança dos pequeninos.São as Quixotes de Miguel de Cervantes.Místicas, não raro, estão sempre nuas em sentimentos. Quando precisam, cruas, esmolam com o corpo, e se postam à espera do punhal do prazer que cravam no seu ventre. È quando o prazer humilha.São as habitantes do inferno de Dante.

Rainhas de castelos de madeiras, sustentam os filhos como príncipes, e os protegem da fome, do frio, e da vida dura e cruel que insiste em bater na porta dessas mulheres de panela vazia. Quanto aos reis, também são os mesmos: os covardes dos vinhos da ira.Mágicas, esses anjos se transformam em rochas, quando a vida pede grão de areia. Em flores quando rastejam e espinhos quando protegem. Essas mulheres são aquelas que limpam tapetes, mas não admitem serem pisadas. São domésticas, mas não aceitam serem domesticadas.Sim, são as deusas do dia a dia.

Sérgio Vaz

Linguagem e medo global

Na era vitoriana, as calças não podiam ser mencionadas na presença de uma senhorita.
Hoje, não fica bem dizer certas coisas na presença da opinião pública.

O capitalismo ostenta o nome artístico de economia de mercado, o imperialismo chama-se globalização.

As vítimas do imperialismo chamam-se países em vias de desenvolvimento, o que é como chamar de crianças aos anões.

O oportunismo chama-se pragmatismo, a traição chama-se realismo.

Os pobres chamam-se carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.

A expulsão das crianças pobres do sistema educativo é conhecida sob o nome de deserção escolar.

O direito do patrão a despedir o operário sem indenização nem explicação chama-se flexibilização do mercado laboral

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria.

Ao invés de ditadura militar, diz-se processo.

As torturas chamam-se pressões ilegais, ou também pressões físicas e psicológicas.

Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões e sim cleptómanos.

O saqueio dos fundos públicos pelos políticos corruptos responde pelo nome de enriquecimento ilícito.

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos automóveis.

Para dizer cegos, diz-se não visuais, um negro é um homem de cor.

Onde se diz longa e penosa enfermidade deve-se ler cancro ou SIDA.

Doença repentina significa enfarte, nunca se diz morte e sim desaparecimento físico.

Tão pouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares.

Os mortos em batalha são baixas, e as de civis que a acompanham são danos colaterais.

Em 1995, aquando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: "Não me agrada essa palavra bomba, não são bombas. São artefactos que explodem".

Chamam-se "Conviver" alguns dos bandos que assassinam pessoas na Colômbia, à sombra da protecção militar.

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade a maior prisão da ditadura uruguaia.

Chama-se Paz e Justiça o grupo paramilitar que, em 1997, metralhou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, no momento em que rezavam numa igreja da aldeia de Acteal, em Chiapas.


Eduardo Galeano

Poema Brasileiro




No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes de completar
8 anos de idade

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade


(1962)Ferreira Gullar

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Persépolis: autobiografia de uma lutadora no Irã

Em branco e preto e com traços bastante expressivos e simples, Persépolis é uma das Histórias em quadrinhos mais importantes das últimas décadas. Conta as memórias de Marjane Satrapi – ou Marji – que tinha apenas 10 anos quando ocorreu a revolução iraniana de 1979 que derrubou o Xá Mohamed Reza Pahlevi.

Nesta revolução, houve uma participação popular muito grande, com a formação dos shoras (conselhos populares similares aos sovietes da Revolução Russa), dos quais faziam parte setores expressivos do movimento operário, como os petroleiros. O Xá era uma marionete do imperialismo norte-americano e as pessoas lutavam para, com a queda de Pahlevi, conquistar maior democracia.

Os pais de Marji eram parte de uma classe média intelectualizada socialista. Todos os dias, iam às manifestações contrárias ao regime. No início, Marji não entendia o motivo que levava seus pais a fazerem isto. Tampouco entendia por que tinha vergonha de andar no Cadillac de seu pai.

No entanto, pouco a pouco, entre conversas imaginárias com Deus e Karl Marx, entre participações escondidas em manifestações e a leitura de livros e quadrinhos, acabou compreendendo que a razão de sua vergonha e da revolução era a mesma: “a diferença entre as classes sociais”.

Como em todo o trabalho de Marjane, suas memórias familiares se fundem com a história e a situação política do Irã. Conforme escrito na introdução dos quadrinhos, Marjane herdou toda a história da região da antiga Pérsia e foi a partir desse material que produziu o “primeiro álbum de história em quadrinhos iraniano”.

A revolução foi vitoriosa. Marjane conta que no dia em que o Xá foi embora, “o país fez a maior festa de sua história”. Comemoravam a conquista efetiva de sua liberdade. Comemoravam o retorno dos milhares de presos políticos às suas casas.

Pela primeira vez em 30 anos, a avó de Marji pôde, enfim, reunir seus seis filhos. Entre eles, estava o tio Anouche, parte da esquerda socialista iraniana que foi massacrada pela direção teocrática depois da revolução.



A queda de Pahlevi significou uma terrível derrota para os Estados Unidos. O imperialismo buscava o controle dos ricos poços de petróleo do Irã e, evidentemente, não abandonaria uma de suas peças-chave na região. Armaram o Iraque para que declarasse guerra ao Irã. Como disse o pai de Marji, “a verdade é que, enquanto existir petróleo no Oriente Médio, não vamos saber o que é paz...”.

A hierarquia religiosa aproveitou a guerra contra o Iraque para desmobilizar as massas, atacando os comitês operários, perseguindo o movimento sindical independente e massacrando a esquerda socialista. Com violento esforço reacionário, acabaram com a revolução estabelecendo um Estado burguês ditatorial de ideologia religiosa.

Marji mostra toda a sua alegria e exaltação na queda do Xá e sua confusão com a ascensão dos cléricos. Após ter estudado numa escola laica e bilíngüe, Marji foi obrigada a freqüentar um colégio religioso, a usar o véu e a se submeter a uma série de novas proibições particulares às mulheres. Bastante influenciada pelos questionamentos feministas de sua avó e pela experiência sofrida com o choque cultural dos tempos nos quais viveu na Áustria, Marjane não entendia o motivo daquela peça obrigatória de vestuário.



Tampouco via sentido nas desigualdades cada vez mais abismais entre mulheres e homens de seu país e entre a hierarquia clerical e os trabalhadores e jovens. Estes últimos eram mandados em atacado à guerra em troca de uma pretensa garantia de entrada no paraíso. Em seus oito anos, a guerra entre Irã e Iraque produziu mais de um milhão de mortos.

Em 2007, os quadrinhos foram transformados em animação. No dia de sua exibição oficial, o governo iraniano divulgou uma nota de repúdio condenando a forma como o país é representado na obra de Marjane Satrapi.

Transitando entre o humor e o drama, ao contrário das acusações do governo iraniano, Persépolis não condena o Irã, tampouco idealiza o Ocidente. Em tom confessional, os quadrinhos projetam o aspecto humano das convulsões políticas e sociais que resultaram da deposição revolucionária de uma monarquia ditatorial pró-imperialista, da disputa dos destinos da revolução entre os cléricos e a esquerda socialista, e a formação de uma república islâmica capitalista e repressiva. Um retrato poético, ousado e único.

Nadia Khalil, da redação do jornal Al Baian
Fonte: Portal do PSTU

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Salário

Ó que lance extraordinário:
aumentou o meu salário
e o custo de vida, vário,
muito acima do ordinário,
por milagre monetário
deu um salto planetário.

Não entendo o noticiário.
Sou um simples operário,
escravo de ponto e horário,
sou caxias voluntário
de rendimento precário,
nível de vida sumário,
para não dizer primário,
e cerzido vestuário.
Não sou nada perdulário,
muito menos salafrário,
é limpo meu prontuário,
jamais avancei no Erário,
não festejo aniversário
e em meu sufoco diário
de emudecido canário,
navegante solitário,
sob o peso tributário,
me falta vocabulário
para um triste comentário.
Mas que lance extraordinário:
com o aumento de salário,
aumentou o meu calvário!

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Fórum Social Mundial promove ‘limpeza’ em periferia

do portal do PSTU

• O Fórum Social Mundial (FSM) continua sendo um espaço que aglutina centenas de organizações sociais e milhares de ativistas de diversos países e ideologias. O FSM sempre foi dirigido e organizado pelo PT e pela juventude do PCdoB (UJS). Desta vez, é a própria governadora Ana Júlia (PT), quem investirá pesado no evento.

As obras em volta do acampamento da juventude já começaram. O acampamento será em duas universidades: Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). Elas são cercadas pelo Rio Guamá e por duas grandes periferias, Terra-Firme e Guamá. Por esse motivo, uma fileira de 110 casas, inicialmente, foram compradas e derrubadas para alargar a rua em torno do acampamento. Em seguida, porém, derrubaram muito mais delas.

O governo está comprando as casas por R$ 3 mil, R$ 1.800 e até por R$ 500. Além de valores irrisórios, os moradores não tem direito a um alojamento provisório nem prorrogação dos prazos. Isso os coloca numa situação a caminho da indigência. Após a assinatura do morador, ele espera por um dia improvável em que a migalha cairá em sua conta. Após isso, lhe restam apenas cinco dias para sair. Caso não saia, as autoridades competentes o despejam a força.

Os que se recusam a assinar, recebem intimações judiciais e visitas de advogados com policiais em tom ameaçador. Os moradores disseram que as mulheres são as mais pressionadas. Segundo eles, o governo alega que se trata de uma área de invasão e diz que as pessoas não tem direito a nada. É isso que o governo chamado de popular e democrático do PT pensa sobre as ocupações urbanas e populares?

As primeiras casas derrubadas foram compradas por preços bem melhores. Aparentemente, o objetivo do governo era isolar as casas restantes e forçar os moradores a aceitarem quantias irrisórias. Outra tática importante do governo foi a de começar as demolições durante as férias da UFPA para evitar prováveis atritos com o movimento estudantil. No ano passado, os ativistas ocuparam a reitoria daquela universidade e, certamente, apoiariam os habitantes.

Muitos moradores já perderam seus empregos devido aos abalos psicológicos. O clima de depressão é geral. Ficamos sabendo de uma senhora de 83 anos, conhecida como a “mãezona” da vizinhança, que foi despejada. Ela vivia da solidariedade da comunidade. O governo garantiu que seria pago um aluguel a ela até que encontrasse outra casa morar. A última notícia que tivemos foi de que está morando de favor num lugar distante. O dinheiro do aluguel nunca chegou.

A Organização do FSM alega que não tem nada que ver com o problema e que são obras do governo não-ligadas ao Fórum. Já é bastante contraditório que digam isso de um governo que eles mesmos apóiam. Fomos conferir com o órgão responsável pela obra, a COHAB, e ouvimos que “as obras não tem a ver com o Fórum Social Mundial mas, temos ordens para aprontar essa primeira etapa de remanejamento desse pessoal até janeiro, para que seja estreado durante o evento”.

Agora fica mais claro porque tamanha truculência e pressa nesse projeto. Tudo em nome de “um outro mundo possível”.

Dinorah da Silva e Érica Correa, de Belém (PA)
 
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