Pérola

"Nós entendemos que Israel tem o direito de se defender pois nesses últimos anos o Hamas lançou diversos foguetes na região"
Barack Obama

domingo, 21 de dezembro de 2008

A bomba suja

Introduzo na poesia

A palavra diarréia.
Não pela palavra fria
Mas pelo que ela semeia.

Quem fala em flor não diz tudo.
Quem me fala em dor diz demais.
O poeta se torna mudo
sem as palavras reais.

No dicionário a palavra
é mera idéia abstrata.
Mais que palavra, diarréia
é arma que fere e mata.

Que mata mais do que faca,
mais que bala de fuzil,
homem, mulher e criança
no interior do Brasil.

Por exemplo, a diarréia,
no Rio Grande do Norte,
de cem crianças que nascem,
setenta e seis leva à morte.


É como uma bomba D
que explode dentro do homem
quando se dispara, lenta,
a espoleta da fome.

É uma bomba-relógio
(o relógio é o coração)
que enquanto o homem trabalha
vai preparando a explosão.

Bomba colocada nele
muito antes dele nascer;
que quando a vida desperta
nele, começa a bater.

Bomba colocada nele
Pelos séculos da fome
e que explode em diarréia
no corpo de quem não come.

Não é uma bomba limpa:
é uma bomba suja e mansa
que elimina sem barulho
vários milhões de crianças.

Sobretudo no nordeste
mas não apenas ali
que a fome do Piauí
se espalha de leste a oeste.

Cabe agora perguntar
quem é que faz essa fome,
quem foi que ligou a bomba
ao coração desse homem.

Quem é que rouba a esse homem
o cereal que ele planta,
quem come o arroz que ele colhe
se ele o colhe e não janta.

Quem faz café virar dólar
e faz arroz virar fome
é o mesmo que põe a bomba
suja no corpo do homem.

Mas precisamos agora
desarmar com nossas mãos
a espoleta da fome
que mata nossos irmãos.

Mas precisamos agora
deter o sabotador
que instala a bomba da fome
dentro do trabalhador.

E sobretudo é preciso
trabalhar com segurança
pra dentro de cada homem
trocar a arma de fome
pela arma da esperança.


Ferreira Gullar

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A herança

Assim Nixon comanda com napalm,
assim devasta raças e nações,
assim governa o triste Tio Sam:


com assassinos em seus aviões
ou com dólares verdes que reparte

entre politiqueiros e ladrões.


Chile, te colocou a geografia

entre o oceano e a primavera,

entre a neve e a soberania

e tem custado o sangue da gente
lutar pelo decoro. E a alegria
era delito em tempo precedente.

Recordam dos massacres miseráveis?
deixaram-nos a pátria malferida
a golpes de correntes e de sabres!


Pablo Neruda

1984: ANO 1, ERA DE ORWELL

enquanto os mortais
aceleram urânio
a borboleta
por um dia imortal
elabora seu vôo ciclâmen


v


uma dança
de espadas


esta
escrita
delirante

lâminas cursivas

a lua
entre dois
dragões

com uma haste
de bambu
passar
por entre lianas
sem desenredá-las


Haroldo de Campos

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Hai-kais por Alice Ruiz

"à beira do insuportável
essa qualidade rara
ser insubordinável "

"roubaram a casa
as moscas ficaram
às moscas "

"quem ri quando goza
é poesia
até quando é prosa"


"fim de tarde
depois do trovão
o silêncio é maior"

"diante do mar
três poetas
e nenhum verso"

"lembra aquele beijo
corpo alma e mente?
pois eu esqueci completamente"

"sob a folha verde escura
a folha verde clara
trêmula dissimula"

"varal vazio
um só fio
lua ao meio"

"você deixou tudo a tua cara
só pra deixar tudo
com cara de saudade"

"the forget-me-not is blooming
but the things of long ago
how can I forget them?"*

"mal me quer
coisas de antes
quem não quer"*

"névoa na estrada
à beira de um sonho
um trem para Praga"

Alice Ruiz
*Do livro Dez Haiku - Tradução de Alice Ruiz

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Poesias por Leminsk

en la lucha de classes

en la lucha de classes
todas las armas son buernas
piedras,
noches
poemas


Quero a vitória...


quero a vitória
do time da várzea

valente
covarde

a derrota
do campeão

5 X 0
em seu próprio chão

circo
dentro
do pão


Manchete


CHUTE DE POETA

NÃO LEVA PERIGO À META


Um bom poema


um bom poema

leva anos

cinco jogando bola,

mas cinco estudando sânscrito

seis carregando pedra,

nove namorando a vizinha,

sete levando porrada,

quatro andando sozinho,

três mudando de cidade,

dez trocando de assunto,

uma eternidade, eu e você,

caminhando junto.


Eu queria tanto


eu queria tanto

ser um poeta maldito,

a massa sofrendo

enquanto eu profundo medito


eu queria tanto

ser um poeta social

rosto queimado

pelo hálito das multidões


em vez

olha eu aqui

pondo sal

nesta sopa rala

que mal vai dar pra dois


Podem ficar com a realidade


podem ficar com a realidade

esse baixo astral

em que tudo entra pelo cano


eu quero viver de verdade

eu fico com o cinema americano



Paulo Leminski




segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

pequena notícia rápida...

A repressão da polícia contra os estudantes de Santos em luta continua existindo. Depois de levar cerca de 30 estudantes pro 7º DP os estudantes foram impedidos de panfletar na porta da universidade. Um estudante tem seu cartão bloqueado e foi impedido de entrar na universidade que estuda, ou tenta, pois soube ali que tinha sido expulso da universidade.
Na hora da panfletagem, chegou três viaturas políciais que impediu não só a panfletagem, como também impediu estudantes de entrarem na universidade para fazerem suas provas finais.
Os estudantes presentes na ocupação são vigiados até mesmo quando estão em bares, em atividades que nada tem haver com a luta estudantil...
Coloco aqui, novamente, a minha solidariedade!
Fabiano Santos
 
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