Pérola

"Nós entendemos que Israel tem o direito de se defender pois nesses últimos anos o Hamas lançou diversos foguetes na região"
Barack Obama

domingo, 30 de setembro de 2007

O sobrevivente


Impossível compor um poema

a essa altura da evolução da humanidade.

Impossível escrever um poema

- uma linha que seja- de verdadeira poesia.

O último trovador morreu em 1914.

Tinha um nome que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas

para as necessidades mais simples.

Se quer fumar um charuto aperte um botão.

Paletós abotoam-se por eletricidade.

Amor se faz pelo sem-fio.

Não precisa de estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito

para atingirmos um nível razoável de cultura.

Mas ate´lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram e matam-se como percevejos.

Os percevejos heróicos renascem.

Inabitável, o mundo e´cada vez mais habitado.

se os olhos reaprendessem a chorar

seria um segundo dilúvio.

(desconfio que escrevi um poema)


Caros Drummond de Andrade

júlio cortázar


E depois de fazer tudo o que fazem,

se levantam, se banham, se entalcam,

se perfumam, se penteiam, se vestem,

e assim progressivamente vão voltando

a ser o que não são.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Vandré

De todas as mortes que carrego,
marcadas em minha alma feito cicatrizes,
de todos os crimes da ditadura
um me dói de forma especial.

Não é a multidão de mortos
com seus corpos dilacerados.
Não são os ossos perdidos
que buscam por seus nomes.

Não é o tiro
o choque
o murro.

É o poema que não foi feito,
a música inacabada,
aquela melodia presa na mente
soterrada pelo medo.

Os dedos inúteis longe das cordas,
o acorde que nunca foi desperto,
os olhos secos das lágrimas justas,
a voz calada.
Que requinte mas perverso de crueldade:
matar alguém e deixar seu corpo vivo
como testemunha da morte inacabada.
Mauro Iasi

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Orientação

menos que retratar:
fazer do verbo a bússola
para o amanhã

menos que chorar:
a-r-marem gestos e palavras
o braço que é trocado
por cifrões


não mais murmúrios
de ventos noturnos:
agora é o grito claro
despertando o sol de amor
por sabres dilacerado
antes mesmo da aurora

não mais a doce esperança
ingênua como criança:
hoje vale a certeza
do árduo caminho à frente
(berço de mil ciladas)
a ser trilhado levando
a verdade feita tocha, canção, faca
com gosto de madrugada.

Mário Jorge

Aula de Vôo



Aula de Vôo

O conhecimento
caminha lento feito lagarta.
Primeiro não sabe que sabe
e voraz contenta-se com cotidiano orvalho
deixado nas folhas vividas das manhãs.

Depois pensa que sabe
e se fecha em si mesmo:
faz muralhas,
cava Trincheiras,
ergue barricadas.
Defendendo o que pensa saber
levanta certeza na forma de muro,
orgulha-se de seu casulo.

Até que maduro
explode em vôos
rindo do tempo que imagina saber
ou guardava preso o que sabia.
Voa alto sua ousadia
reconhecendo o suor dos séculos
no orvalho de cada dia.

Mas o vôo mais belo
descobre um dia não ser eterno.
É tempo de acasalar:
voltar à terra com seus ovos
à espera de novas e prosaicas lagartas.

O conhecimento é assim:
ri de si mesmo
E de suas certezas.
É meta de forma
metamorfose
movimento
fluir do tempo
que tanto cria como arrasa

a nos mostrar que para o vôo
é preciso tanto o casulo
como a asa


Mauro Iasi

terça-feira, 7 de agosto de 2007

O sertão


"O sabiá no sertão

Quando canta me comove

Passa três meses cantando

E sem cantar passa nove

Porque tem a obrigação

De só cantar quando chove"


Zé Bernardinho
 
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